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  • Massimo Di Felice

As formas pandêmicas do habitar III


Dos parlamentos para as redes trans-organicas: como a pandemia tornou a idéia ocidental de política obsoleta

Não se pode enfrentar uma pandemia com a nua razão e o “céu estrelado acima de nós”. Quando nossos netos estudarão a história de nossos dias identificarão nossa epoca como um momento de passagem, um ponto de virada entre uma forma de sociedade, politicamente organizada, através de parlamentos, eleições e práticas democráticas, para outra.

A pandemia mostrou claramente uma mudança de época na arquitetura dos processos decisionais e na própria ideia da política ocidental. Diante da disseminação do contágio, políticos e parlamentos de todo os lugares do mundo delegaram a tomada de decisão às equipes de cientistas que, por sua vez, dependiam, para suas análises, de dados, de sensores, algoritmos e softwares que pudessem monitorar a evolução do contágio e a disseminação do vírus. Assim como acontecido com a disseminação das arquiteturas de redes digitais, o vírus e a pandemia têm deslocado ainda mais os processos de tomada de decisão além dos parlamentos, dos partidos, das ideologias e das políticas humanas, estendendo-os para as complexidades ecológicas das redes de dados, para software, vírus e diferentes substâncias.

Diante dessa complexidade, a tomada de decisão toma forma e se desenvolve não mais antropomorficamente e politicamente mas através de uma ecologia complexa composta por diferentes atores (dados, softwares, algoritmos, vírus, medicamentos, químicos, pessoas etc.) cada um dos quais, em quanto conectados e transformados em dados, é levado a agir pelos outros. Conforme esclarecido pelas leis de interação nas redes, dentro de tais complexidades interdependentes ninguém é autônomo e categoricamente responsável por sua própria ação que, pelo contrário, é sempre o resultado final e consequente de um grande número de interações. Uma ação e um agir não mais simplesmente subjetivo, estratégico, racional e transitivo.

A descrição dessas novas ecologias reticulares transorgânicas não tem nada a ver com as definições das diferentes formas de governo elaborada por Aristóteles, (monarquia, governo de um, aristocracia, governo dos especialistas, democracia, governo do povo). Nem deve ser considerada como a perda da autonomia do homem e do seu poder de decisão, pois isso nunca existiu, exceto na visão imaginária do humanismo ocidental.

O que caracteriza a transição dos processos políticos parlamentares, das esferas públicas para a transorganidade, não é o deslocamento dos processos decisionais para os não humanos (dados, algoritmos, vírus, clima etc.), como narrado pela imaginação da ficção cientifica mas a construção de uma ecologia não mais sujeito-cêntrica do mundo. Trata-se do fim da ilusão da ação do sujeito político e da ideia de realidade produzida pelo pensamento ocidental. A objetividade do mundo e a supremacia nesta da ação do ser humano é suplantada pelo advento de uma ecologia pandêmica, emergente e algorítmica de interações que substitui a ação política do sujeito pelas interações em redes complexas, desenvolvidas através da transformação de cada entidade em dados.

O vírus e a pandemia demonstraram claramente a força da ação dos vírus e do mundo sobre os humanos, resultando na morte da ideia política ocidental baseada na ilusão da autonomia de tomada de decisão do sujeito racional sobre o mundo.

Hannah Arendt, inspirada por Aristóteles, argumentou que o mundo animal, assim como o mundo das plantas, não tinha nada a ver com o mundo humano e que a política era apenas uma atividade exclusiva dos humanos. "A política basea-se na pluralidade dos homens. Deus criou o homem, os homens são um produto humano mundano, e o produto da natureza humana. (...) Para todos os pensamentos só existe os homens (...) assim como para a zoologia só existem leões. Os leões, seriam, no caso, uma questão que só interessaria os leões. (...) A política trata da convivência entre de diferentes (humanos). Politicamente, os humanos se organizam de acordo com certos traços comuns." (Arendt H O que é política) Hannhs Arendt estava errada, e com ela todo o pensamento político ocidental de Platão a T. Hobbes. Estamos relacionados e emparentados com vírus e morcegos e nossas ações e decisões dependem e são influenciadas por diferentes entidades.

O século XXI não será mais governado por humanos, parlamentos e ideologias políticas. É necessário e urgente mudar a maneira como pensamos e começar a considerar o humanismo como a expressão do nosso orgulho e do nosso autismo racional e a razão política como o principal perigo e a real ameaça à perpetuação de nossa espécie. (Continua)


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